“Menina fria do coração congelado. Congelado pelos ventos frios da sua sacada, onde esperava seu conto de fadas num alazão branco. Ansiava ser cobiçada pelos galantes e musa dos poetas. Pobre criança. Cresceu afastada das outras crianças por ter a face distorcida. Bigodes e sobrancelhas nasceram pelo seu corpo. Foi estuprada na adolescência, numa viela qualquer, por um bêbado fétido. Se odiava em frente do espelho e praguejava olhando pra cima na espera de uma resposta de um tal Deus dos oprimidos. Pobre moça. Se perguntava quando ia ter fim aquele inferno apelidado de vida. (Sobre-)Viveu por mais 20 anos. Solitária. Virou chacota no vilarejo e as crianças lhe apedrejavam. Teve um trágico destino. Morreu com algumas dessas pedras acertadas na cabeça. No meio da rua, a mulher de bigodes servia de banquete para os urubus. Pobre mulher. Em seu peito jazia um poço de sonhos. Teve sua alma arrancada sem permissão, e se jogou no abismo do desgosto de vida, perdeu os sentidos e foi invadida por desalmados que a rodeava. Com sua vida e alma aprisionada, encontrou descanso nas pedras que lhe foram atiradas.”
“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo. Repito sete vezes para dar sorte: que seja doce, que seja doce, que seja doce, e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.”
“Não sou perfeito, mas estou aqui, não estou? Olhe a sua volta… eu fiquei.”
“Eu creio que a senhora sonha talvez demais. Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis? Digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.”
“— Acabou o amor.
— Ao menos existiu?”
“Tantas vezes eu tive oportunidade de deixar o orgulho de lado, e correr ao seu encontro, para te dar um abraço bem apertado e dizer tudo o que eu sinto. Mas o orgulho sempre falou mais alto. Agora todos os dias eu fico imaginando, como seria bom ter feito a vontade do meu coração.”
“Convence as paredes do quarto de que tudo está bem, e dorme tranquilo, sabendo que no fundo do peito não é nada disso.”